Glauco Mattoso: os 60 anos do poeta maldito

Autor de versos que exploram temas polêmicos como violência e discriminação, ele é reputado como o Bocage do século 20

Quando, nos anos 1970, a censura dos militares fechava o cerco contra os artistas, um funcionário do Banco do Brasil, Pedro José Ferreira da Silva, estreava como escritor. E com algo retumbante: em envelopes com uma suspeita página dobrada ao meio, ele enviou a personalidades como Caetano Veloso e Décio Pignatari uma série de poemas, aforismo e sátiras, sobre temas que variavam da escatologia e homossexualidade a política e literatura.

Com JORNAL DOBRABIL, nascia o poeta, músico, contista, etc. Glauco Mattoso, pseudônimo que fazia alusão ao glaucoma, que lhe tiraria totalmente a visão nos anos 1990. Consagrado como escritor marginal, ele completa 60 anos hoje, que serão comemorados com encontro no Espaço Cultural Barco, ao lado do quadrinista Lourenço Mutarelli, do tradutor Mamede Mustafa Jarouche e do professor Vicente Seraphim Pietroforte. Juntos, vão participar do lançamento de Tripé do Tripúdio e Outros Contos Hediondos (Tordesilhas) e Bibliotheca Mattosiana (Demônio Negro). Sobre o evento, Mattoso respondeu, por e-mail, às seguintes questões, com respostas cuja grafia, apesar de peculiar e com ortografia antiga, foi atualizada – veja no trecho abaixo a forma adotada pelo autor.

O que é ser “marginal” hoje?

Bom, primeiro que a chamada “literatura marginal” de agora difere da dita “poesia marginal” setentista: na de hoje os autores (como Ferrez ou Sacolinha) são representantes da verdadeira periferia favelada, portanto mais próximos duma marginalidade social; os poetas da minha geração eram marginais quanto ao mercado editorial e quanto a uma visão mais acadêmica da literatura, já que criavam e veiculavam sua obra de modo mais informal e improvisado, típico da resistência artística num período ditatorial. Mas, para responder de modo mais pessoal, já não me confundo com aquela geração, pois, além de ter adotado formas mais clássicas depois de ter ficado cego (nos 90), me inscrevo naquela tradição fescenina que melhor leva o adjetivo de “maldito” que de “marginal”, lembrando que a poesia sempre será deixada meio de lado quando se encara uma obra literária apenas pelo prisma comercial.

Por que a métrica se transformou em mero detalhe para outros?

Enquanto enxerguei e fui mais anárquico como fanzineiro, não fiz questão de métrica ou rima, mas sempre admirei os clássicos pelo rigor da forma. Passada a fase visual, a cegueira me chamou a atenção para a força da oralidade na poesia, como nos primórdios, quando ela se confundia com a música. Daí passei a dar mais importância aos recursos mnemônicos (metro, rima, ritmo), os quais, aliás, nunca foram abandonados na letra de música nem na poesia de cordel. O grande barato foi transplantar para uma estrutura fixa toda aquela temática bruta e suja que eu praticava na fase visual: chamo esse apuro formal com tema impuro de “pornosianismo” (risos). Quanto aos meus pares, felizmente nem todos perderam a noção das regras de versificação, como Bráulio Tavares, Antônio Cícero ou Paulo Henriques Britto.

Seus sonetos debocham da seriedade e da falta dela, mas não disfarçam uma incontornável amargura. Por quê?

É verdade. Acho que a literatura mais autêntica tem de refletir a vida do autor, e sou um incorrigível revoltado com as injustiças (humanas ou divinas) de que fui vítima e de que são vítimas outros desfavorecidos. A cegueira me acentuou essa percepção pessimista do mundo, mas também acho que o poeta, como bom fingidor, tem de rir da própria dor e da dor alheia, como já comentou Cacaso a meu respeito.

Ser escritor define algum tipo de identidade, ou é apenas um ofício?

No meu caso, escatológico como sou, dava até para dizer que ser escritor é ser excretor… (risos) Mas, falando sério, é apenas um ofício, ressalvando que, tratando-se de arte, os ofícios não dependem só de técnica, mas também de criatividade e sensibilidade.

Com quem compartilha uma noção poética do mundo?

Me afino mais com aqueles da linhagem fescenina, mais irreverentes e transgressivos (no caso lusófono, Gregório de Matos, Laurindo Rabello ou Emilio de Menezes no Brasil; ou Bocage, Alberto Pimentel e Abade de Jazente em Portugal), mas nem só com os satíricos me identifico: também a morbidez e a sordidez dum Augusto dos Anjos me falam de perto, tal como o fetichismo podólatra de Luiz Delfino. Nenhum deles, contudo, exclui a admiração pelos ditos “maiores”, como Camões, Pessoa, Bilac ou Bandeira.

Qual o melhor caminho para se transgredir um cânone?

Ao contrário do que acham os mais radicais, não é o caminho da abolição da rima ou da métrica, muito menos do verso. Tais rupturas foram vanguardistas no momento em que foi necessário colocar em xeque certos modismos estéticos, mas, para mim, o melhor caminho é manter a forma e bagunçar dentro das regras, quer dizer, transgredir pelas entranhas, profanar pelo fundo. Acho, aliás, que o desafio é mais gostoso quando a gente mantém a dificuldade de seguir regras rígidas para desmoralizá-las no espírito de “nobreza” que pretenderam instituir.

Sua obra convive com extremos: a escatologia de um lado e o experimentalismo poético do outro. Como é lidar com esses dois universos? Quais os pontos de convergência?

Nem precisa de pontos de convergência. Você tocou no meu ponto fraco: sou fascinado pelo paradoxo, pelo oxímoro, pela antítese, pois acho que todos somos contraditórios o tempo todo. Depois de ter enxergado, a cegueira me confirmou que em nós convive o claro e o escuro, o certo e o errado, o prazer e a dor, o belo e o feio, entre outras dualidades. Mocinho e bandido, bonzinho e maldito, o poeta tem um pouco dos dois. Em tempo: como isto não é um poema nem um texto que assino como colaborador, naturalmente você fica à vontade para manter ou não minha ortografia, sistema que já adaptei na fase marginal e readotei agora, rebelado contra mais uma reforma absurda e autoritária.

GLAUCO MATTOSO, 60 ANOS – Espaço Cultural Barco. Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, 3081-6989. Hoje, 19h30

Segundo raul seixas, um palito
ja basta p’ra travar o mechanismo
complexo e gigantesco, e um cataclysmo
até um gury detona, si é seu ficto.
o subito apagão será (acredito)
um balde de agua fria no optimismo,
mais grave e destructivo do que um sismo,
que tem alcance e effeito bem restricto.
metade dum paiz fica no escuro
e nem se sabe a causa do que pifa!
si nada apuram, foi terror, no duro!
mais tarde, uns expertinhos bolam rifa
de imposto e augmento, e embutem tanto juro
na conta, que o usuario se encafifa…”

Da Sabotagem

Do livro Poemidia e Sonetrilha

 

Fonte: O Estado de São Paulo

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