Macumba Oswaldiana

Transformar a área ao lado do Oficina em um “teatro estádio”, nos moldes das arenas gregas, é um sonho antigo de Zé Celso Martinez Corrêa. Há anos se arrastava a peleja com Silvio Santos, que pretendia erguer um shopping no local. A solução para o impasse, contudo, nunca pareceu estar tão próxima.
Agora, nas festividades de 50 anos do Oficina, o diretor só fala naquilo que chama de “troca entre terrenos”. Na prática, o processo significa que o grupo Silvio Santos teria aceitado trocar o espaço que circunda o teatro – avaliado em R$ 33 milhões – por outro de igual valor em qualquer ponto da cidade. “Com a crise que está passando, ele se humanizou muito”, diz Zé Celso sobre o outrora arqui-inimigo. “Nós nem imaginávamos que um dia fossemos nos tornar amigos, falar no telefone.”
A ideia também ganha força com a homologação do tombamento do edifício projetado por Lina Bo Bardi. Com a resolução, não é apenas o prédio que passa a ser considerado patrimônio histórico nacional. Todo o seu entorno também fica protegido. Só falta o Ministério da Cultura ou outra esfera pública encampar a causa de Zé Celso.
Enquanto isso não acontece, ele toca as festividades do cinquentenário com um espetáculo que já é um ensaio para a nova morada. Em Macumba Antropófaga, a encenação extravasa os limites do teatro e toma o terreno vizinho como palco para uma imensa pajelança.
Em cortejo, atores e público devem percorrer ainda as ruas do Bexiga. Irão entoar o Mandu-Çarará de Villa-Lobos. Encontrar Pagu, Carlos Gomes e Dom Pedro I. Parar diante do velho TBC – Teatro Brasileiro de Comédia. “Lá, invocaremos o espírito de Cacilda Becker, que logo depois se transforma em Tarsila do Amaral”, explica o diretor. Na sequência, seguem até a Rua Ricardo Batista, endereço onde morou Oswald de Andrade.
Não por acaso o escritor aparece como foco do novo espetáculo. A montagem, que já foi vista em Inhotim, MG, e na última edição da Festa Literária Internacional de Paraty, retoma o manifesto oswaldiano e todo o seu ideário. Reafirma a influência que o polêmico modernista exerceu sobre os rumos da trupe pelo menos desde 1967, com a estreia de O Rei da Vela. “Existem para nós claramente dois momentos: pré e pós O Rei da Vela”, comenta o líder da Oficina Uzyna Uzona.
De fato, não é exagero dividir a trajetória do grupo em antes e depois desse encontro com o autor de Serafim Ponte Grande. Inaugurava-se ali uma nova visão de Brasil. Um teatro anárquico descrente do racionalismo e do realismo, uma audácia cênica nunca vista entre nós.
Todos os textos europeus ou norte-americanos montados desde então surgiram travestidos por um olhar absolutamente autoral e brasileiro. Devedor da poética de Oswald e da sua antropofagia. Filiado às tradições do coro grego.
A origem. Foi no número 520 da rua Jaceguai – precisamente no mesmo local onde é hoje a sua sede – que o grupo Oficina inaugurou seu primeiro teatro. Já no começo de 1961, os meninos egressos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco anunciavam seus novos planos. A partir de sua próxima criação, deixariam a fase amadora e se tornariam profissionais.
Remodelado pelo arquiteto Joaquim Guedes, o antigo Teatro Novos Comediantes ganhou outros contornos e recebeu, em 16 de agosto, a primeira récita de A Vida Impressa em Dólar, texto de Clifford Odets que marcou a estreia de Zé Celso na direção. “Levamos oito meses para construir o teatro. Mas, no dia seguinte à abertura, a peça foi proibida e a sala fechada por não ter condições de funcionar”, lembra o encenador. “O Jânio Quadros renunciou no dia 25 de agosto. Assim que ele saiu, nós voltamos. E não paramos mais.”
Nessa época, encenaram textos como Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams e Todo o Anjo é Terrível, de Ketti Frings. Mas, a companhia, que surgiu para se contrapor ao “teatro burguês” do TBC e à verve política do Arena, só começou mesmo a despertar a atenção com sua versão de Os Pequenos Burgueses, de Gorki.
O lançamento de O Rei da Vela coroava essa trajetória, mas também insinuava uma radical mudança de rumo. Seu caminho não era o do realismo de Stanislavski. Nem podia ser resumido apenas ao distanciamento preconizado por Bertolt Brecht.
“A descolonização do Oficina veio com O Rei da Vela e com Roda Viva. Desde então, nós fizemos tudo por meio da leitura da antropofagia: Shakespeare, Nelson Rodrigues”, diz Zé Celso. “Todas as ideias de que falamos hoje surgem quando a gente monta Oswald. A ideia de um teatro para as multidões. A noção de que o teatro não é igual à vida. O teatro é mais vida.” Vida longa do Oficina.

POLÊMICO, ZÉ CELSO CRITICA ARTISTAS
De Oswald de Andrade, Zé Celso não herdou apenas as ideias, mas também a propensão à polêmica. Recentemente, o diretor voltou à berlinda, insurgindo-se contra a postura dos artistas que lideravam um protesto por mais verbas para a cultura.
Durante a ocupação da Funarte, Zé Celso criticou o teor do documento divulgado pelo movimento, tachando-o de burocrático. Em seu blog, ele também questionou o fato de os portões da entidade terem sido fechados. “Vi o que nunca esperava ver: o prédio ocupado por artistas estava fechado com ferrolhos medievais”, escreveu, despertando uma série de respostas na internet.

MACUMBA ANTROPÓFAGA
Teatro Oficina
R. Jaceguai, 520, tel. 3106-2818.
Estreia 16/8, às 21h. A partir do dia 20, sáb. e dom., às 16h. R$ 50.

Fonte: O Estado de São Paulo

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