Ator Marcos Felipe conquista o público e a crítica como o travesti da peça Luis Antonio – Gabriela

Um dos novos talentos nos palcos, artista fala da vida e do sucesso com a Cia. Mugunzá

A professora de matemática Dilma Correa, moradora da Freguesia do Ó, em São Paulo, agora tem uma obrigação: guardar, em uma pastinha, jornais e revistas que falem de seu filho.

Afinal de contas, aos 28 anos, Marcos Felipe, o menino popular na escola do bairro, é protagonista do espetáculo mais falado na cena paulistana, Luis Antonio – Gabriela, da Companhia Mugunzá.

Dilma teve a certeza de que seu filho era um artista quando o levou, aos sete anos, para ver o Balé da Cidade, no Theatro Municipal.

Os olhos do garoto brilharam ao se darem conta de que o palco existia como uma possibilidade concreta, como ele lembra até hoje, com o mesmo brilho.

– Ali, naquele palco, percebi que não existia nenhum preconceito de nada.

Ele nem fazia ideia de que seria uma vítima do preconceito nos palcos duas décadas depois, o travesti Luis Antonio – Gabriela, o primeiro ponto alto de sua carreira.

A peça, que atualmente faz temporada na Funarte com ingressos a R$ 5, estreou no começo do ano, gratuita, no Centro Cultural São Paulo. Em uma semana, já estava na boca do povo. Conseguir entradas, desde então, virou uma missão quase impossível. Todo dia fica gente pra fora.

Tanto sucesso deixa Marcos Felipe ainda sem saber como reagir. De cara, a crítica especializada reconheceu a importância da montagem, que recebeu indicações aos mais celebrados prêmios teatrais. Como não poderia deixar de ser, Marcos foi indicado a melhor ator nos prêmios Shell e APCA (Associacao Paulista dos Críticos de Arte).

Mas ele não é fã da badalação. Marcos gosta de sair pouco. Depois da peça, bastante cansativa para ele e o elenco, costuma ir para casa descansar.

Entretanto, nas poucas vezes que sai, já percebe uma mudança no comportamento da classe artística. Sente o burburinho quando entra nos bares e restaurantes frequentados pela turma do teatro. Todo mundo que viu a peca quer cumprimentar. Dizer sua opinião. Dar os parabéns. Ele fica encabulado.

Foi no teatro da escola que logo percebeu que aquilo poderia ser um algo mais. Gostava de ficar diante das pessoas. De interpretar. Quando chegou a hora do vestibular, ficou com medo de pular de cabeça em uma profissão tão volúvel quanto as ondas do mar. Preferiu estudar jornalismo, para garantir o pão de cada dia.

Mas, por quatro anos e meio, estudou também teatro, aos fins de semana, no Macunaíma, tradicional escola de interpretação no centro de São Paulo. Foi lá que conheceu a turma que, com ele, fundaria a Cia. Mugunzá.

Cheios de garra para trabalhar com a arte que os permitisse ir além dos empregos paralelos, convidaram o diretor Nelson Baskerville, que hoje ele chama de seu “pai no teatro”, para conduzir Por Que a Criança Cozinha na Polenta, a primeira montagem.

A história era dura: sobre uma criança de circo do leste europeu comunista que se aventurava com a conturbada família pela Europa. Drama forte, de tema estranho ao cotidiano brasileiro. Ganharam dezenas de prêmios em festivais Brasil afora.

A dobradinha com o diretor deu certo e aí veio a ideia de montar a história do irmão travesti que Baskerville teve, Luis Antonio, como forma de exorcizar uma culpa do passado. Todos mergulharam de cabeça. E aí foi só deixar o Luis Antonio virar Gabriela no corpo de Marcos Felipe.

Sem sede própria, ensaiaram em uma empoeirada salinha em plena reforma do Teatro Sérgio Cardoso. Não tinham ideia de que estavam criando um dos melhores espetáculos do teatro paulistano. Ou, talvez, tivessem, sim.

Marcos não se deixa seduzir pelo glamour do sucesso. Muito pelo contrário, aproveita o momento para avançar com o espetáculo, junto de seus amigos. Não tem medo do trabalho. Tem pé no chão.

Cada um tem uma função administrativa no grupo, mas todos montam cenário, sim, senhor. Tudo de forma coletiva. Marcos conta, feliz, que vão viajar Festival de Teatro do Recife nos próximos dias. Ano que vem, tem Rio e França.

Com as pernas cruzadas em um dos sofás de couro preto do hall de entrada da Funarte, Marcos Felipe demonstra estar pouco à vontade de a reportagem estar sendo feita só com ele. Faz questão de ressaltar que tudo é graças ao trabalho do coletivo. E, enquanto o papo rola, os amigos passam, incluindo a namorada Sandra Modesto, também atriz do grupo, que “sonha junto” com ele.

Explico que é claro que os outros são bons também, isso não está em discussão. Mas é Marcos o Luis Antonio que hipnotiza o público. Ele se encabula.

– Eu não sei se essa ficha caiu. Estou falando de forma sincera. É gostoso, sim, gratificante. Mas é efêmero, eu sei disso. Talvez, um dia, eu olhe para trás e me diga para mim mesmo: olha o momento que estava vivendo e nem me dava conta…

Fonte: Portal R7

A nVersos Editora lançará, no início de 2012, uma publicação baseada na peça Luis Antonio – Gabriela, de Nelson Baskerville.

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