Com mistura de arte e jornalismo, HQs pintam retrato fiel de guerras

‘Palestina’ e ‘O Fotógrafo’ são fontes preciosas de informação e contam histórias que não tem espaço nos grandes jornais

“Devia ter lido isso antes”, foi minha sensação ao terminar os quadrinhos ‘Palestina’, de Joe Sacco, e ‘O Fotógrafo’, do trio Didier Lefèvre, Emmanuel Guibert e Frédéric Lemercier. Se você quer saber alguma coisa sobre as guerras mais intrincadas do planeta, invista suas economias em histórias em quadrinhos.

Tanto ‘Palestina’ quanto Fotógrafo’ são clássicos do HQ de reportagem, um gênero que mistura jornalismo e arte, sem trair o compromisso com a verdade. Mesmo para um repórter que há mais de dez anos trabalha com jornalismo internacional, esses livros representam uma fonte preciosa de informação. Mais do que isso, transmitem a sensação de proximidade com os personagens e de imersão impressionista na história, sem o pedantismo de muitas obras acadêmicas e sem os maneirismos aos quais estamos condenados quando fazemos reportagem num jornal ou numa revista. Além disso, é arte pop da melhor qualidade.

‘Palestina’ é um relato pessoal do jornalista maltês naturalizado americano Joe Sacco em sua primeira viagem a Israel e aos territórios palestinos ocupados. O traço lembra Crumb – figuras exageradas, sob ângulos distorcidos, legendas irônicas e muito sarcasmo, acidez, bom humor.

A editora Conrad do Brasil lançou este ano uma belíssima edição especial, de capa dura, em português, com 286 páginas, por R$ 69,90. Além dos quadrinhos em papel de boa gramatura e impressão, o livro traz ainda um brilhante prefácio escrito por Edward Said, acadêmico da Universidade Columbia e autor, entre outros, do clássico ‘A Questão Palestina’, um dos pilares do assunto. Outro bônus inédito por aqui são as 22 páginas de making of do livro, onde Sacco mostra os rascunhos, roteiros, fotos e anotações que estão por trás da versão final da obra.

“’Palestina’, por si só, já bastaría como prova de que é possível fazer boas reportagens em quadrinhos. O ‘The Nation‘ (semanário americano de opinião e análise em política e cultura) já colocou Palestina como a melhor reportagem sobre a questão já publicada nos EUA”, disse ao Opera Mundi Rogério de Campos, diretor da Conrad.

Perambulando pela zona de guerra

Na passagem de 1991 para 1992, Sacco passou dois meses e meio zanzando sozinho por campos de refugiados palestinos, durante a primeira Intifada. E se você não sabe o que é Intifada, embora sempre ouça falar, os quadrinhos te mostrarão não apenas do que se trata o discurso, o fato político, mas, principalmente a revolta, o levante dos palestinos contra as forças israelenses de ocupação; no cotidiano, nas ruas, longe das câmeras. Nos quadrinhos.

Sem meias palavras, em ‘Palestina’, Sacco buscava as piores histórias, os piores relatos, nos piores lugares. Ele queria ver de perto do que se tratava esse conflito que há décadas segue se renovando, num eterno presente contínuo. Entrava nas casas, tomava chá com familiares de jovens presos, torturados e mortos, via as cicatrizes, cruzava depoimentos, pedia detalhes sobre as sessões de tortura; onde dói, por que dói, como os algozes fazem, o que eles dizem, enfim, uma lição de apuração jornalística e compromisso com os principais atores dos conflitos – as vítimas, os civis, muitas vezes ignorados pelas matérias jornalísticas de formato tradicional.

“Alguns dos buracos mais negros do mundo estão a céu aberto, para qualquer um ver. Por exemplo, você pode visitar um campo de refugiados palestinos na Faixa de Gaza. É só ligar para a UNRWA, a agência da ONU de assistência aos refugiados palestinos, tel.: 051-861195. Eles providenciam tudo, levam você até lá de carro. A entrada é grátis. Eles provavelmente vão querer te incluir num grupo de suecos ou japoneses, mas é melhor que a sua experiência num campo de refugiados seja uma coisa mais íntima. Insista que te levem sozinho. Diga que quer tirar fotos, diga que quer falar com os refugiados, avise quando quiser dar uma parada …”, explica Sacco, com ironia fina, ao abrir um espetacular desenho em branco e preto do campo de refugiados de Jabalia.

Contra ‘Palestina’, pode-se dizer que há nele o pecado da pouca empatia pelo lado israelense da história. Em suas quase 300 páginas, Israel aparece quase sempre representado por soldados imbecis, agentes do Shin Bet (serviço secreto) ou judeus ortodoxos loucos terroristas, patrulhando, oprimindo, destruindo, provocando, ocupando, torturando e matando. Além disso, há israelenses civis esnobes, alheios ao sofrimento dos palestinos. Tudo isso é verdade. Mas é apenas parte de uma verdade que tem dois lados.

“Este é um juízo correto sobre o livro, mas ele não me afeta”, defendeu-se Sacco numa entrevista, em 2007, reproduzida na edição especial da editora Conrad. “Minha posição foi e ainda é que a visão do governo israelense já está bem representada pela grande mídia norte-americana, e é calorosamente defendida por quase todo político eleito para altos cargos nos EUA. ‘Palestina’ foi uma tentativa de retratar um pouco da experiência dos palestinos durante a primeira Intifada.”


Joe Sacco participou da Flip neste ano; jornalista e quadrinista escolhe um ponto de vista, mas não milita

Mas o melhor talvez seja o fato de Sacco não ceder à tentação de militar politicamente, o que seria um desastre do ponto de vista jornalístico, e, além disso – o que talvez seja ainda pior –, tornaria a obra um blábláblá chatíssimo. Ao contrário, ele chega a rir de si mesmo e de sua condição mórbida de observador de rapina, sempre à procura de uma boa desgraça para retratar. “Estou piscando rápido, tirando fotos na minha cabeça e pensando: ‘isto vai ficar ótimo numa página dupla de gibi’ (…) Consegui, tá entendendo? Viajei milhares de quilômetros de avião, ônibus e táxi para chegar exatamente aqui: Jabalia, o campo de refugiados mais imperdível da Faixa de Gaza, o berço da Intifada, uma Disneylândia de abandono e pobreza (…) Estou me beliscando em um carro, numa escuridão numa enchente, tonto por causa da ferocidade lá fora, pensando: ‘Pode vir, eu aguento’, mas a minha janela está bem fechada”.

Afeganistão na rota do tráfico de armas

Já em ‘O Fotógrafo’, o francês Lefèvre usa fotos intercaladas com quadrinhos desenhados por Guibert e ilustrados por Lemercier para narrar em primeira pessoa sua aventura pelo Afeganistão, em 1986. Trata-se de um relato poderosíssimo sobre a imprudência e a coragem de um punhado de membros da ONG Médicos Sem Fronteiras que cruzam a fronteira do Paquistão com o Afeganistão, durante a guerra com as forças soviéticas e no meio de um comboio de traficantes de armas pesadas, para levar socorro médico aos moradores de algumas das aldeias afegãs mais remotas.

Quando fez a viagem, Lefèvre era um jovem fotógrafo de apenas 29 anos, um observador fresquinho, arejado, sem os vícios dos velhos repórteres de guerra, cujo olhar dirigido para as pautas noticiosas tradicionais acaba traindo o leitor interessado nos detalhes. Lefèvre aposta num relato agudo, atento, sensível a climas, gestos e mudanças de humor durante os preparativos e a penosa travessia da caravana.

O Fotógrafo – Uma História no Afeganistão foi publicado no ano passado em português, em três volumes de capa dura e papel couché, pela editora Conrad do Brasil, por R$ 46,00 cada volume.

O mínimo que se pode dizer sobre seu formato – que intercala quadrinhos com fotos em preto e branco – é que foi algo arriscado. A crueza das fotos e a liberdade dos quadrinhos não se misturam na maioria das publicações disponíveis por aí. Mas ‘O Fotógrafo’ faz dessa mescla estranha o motor de sua força narrativa. “É um relato que sai da mesmice. São imagens hiper-realistas, que vão além do fato objetivo, mexem com o imaginário, com o lúdico. O uso de fotos e desenhos, ao mesmo tempo, mostra tudo e nos deixa imaginar”, disse ao Opera Mundi Simone Rocha, autora do prefácio da edição brasileira e funcionária do MSF no Afeganistão por dois meses e meio, em 2004.

Embora os trabalhadores humanitários como Simone sejam personagens interessantes nos conflitos, raramente a imprensa dedica a eles a atenção devida. Ninguém chega mais perto das vítimas, do estrago, da penúria e da miséria de uma ação militar que um cirurgião de guerra. Entretanto, nós, jornalistas de jornais, somos especialistas em ouvir dos médicos apenas avaliações genéricas sobre o estado dos hospitais colapsados depois de um bombardeio ou frases padrão como “foi horrível, havia sangue por todos os lados”.

Relato de artistas como Lefèvre e Sacco fazem justiça às verdadeiras boas fontes e às histórias quase sempre reais demais para caber no jornalismo diário.

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