Pelos filhos, leitores de e-books insistem no papel

Os digitais representam menos de 5% do total anual de vendas de livros infantis, em comparação com mais de 25% em algumas publicações adultas

Educação infantil: os pais Ari Wallach e Sharon leem livros para as filhas gêmeas Ruby (direita) e Eliana, em Nova York

Por Matt Richtel e Julie Bosman

Os livros impressos podem estar sendo sitiados pela ascensão dos livros eletrônicos, mas um grupo em particular não abre mão deles: as crianças. Os pais, no entato, insistem que essa geração de leitores passe seus primeiros anos com livros à moda antiga. Esse é o caso até de pais que adoram baixar livros para Kindles, iPads, laptops e celulares – eles querem os filhos cercados por livros impressos, para experimentar o ato de virar páginas físicas enquanto aprendem sobre formatos, cores e animais.

Os pais também dizem ainda que gostam de se aconchegar com os filhos e um livro, e temem que uma engenhoca brilhante possa roubar toda a atenção. Além disso, se a criança vomitar, o livro pode ser mais fácil de limpar do que um tablet. “É a intimidade de ler e tocar o mundo. É a maravilha de ela tocar uma página comigo”, diz Leslie Van Every, 41 anos, usuária leal do Kindle, cujo marido, Eric, lê no iPhone. Para a filha Georgia, de dois anos, no entanto, a única opção são os livros de papel. “Ela somente lê livros impressos”, disse Van.

À medida que o mundo do livro adulto se torna digital, em um ritmo superior ao que as editoras esperavam, as vendas de livros eletrônicos de títulos voltados para menores de oito anos mal se mexeram. Elas representam menos de 5% do total anual de vendas de livros infantis, segundo estimativa de várias editoras, em comparação com mais de 25% em algumas categorias de livros adultos. Muitos livros infantis também são dados como presente, já que a maioria das crianças de seis anos não tira proveito das delícias de um vale presente da Amazon.

No papel – Os livros infantis também são um ponto alto das livrarias físicas, pois os pais geralmente folheiam o livro inteiro antes de comprá-lo, algo que nem sempre dá para fazer no similar eletrônico. Um estudo encomendado pela HarperCollins, em 2010, constatou que os livros comprados para crianças de três a sete anos eram adquiridos com frequência numa livraria local – 38% das vezes.

E esta é uma pergunta para um debate da era digital: alguma coisa se perde na conversão de um livro ilustrado para seu irmão digital? Junko Yokota, professor e diretor do Centro de Ensino por Livros Infantis da National Louis University, Chicago, acredita que a resposta é sim, pois o formato e tamanho do livro costumam fazer parte da experiência de leitura. Páginas maiores podem ser usadas para cenários amplos, ou um formato mais comprido pode ser escolhido para histórias sobre arranha-céus.

Tamanho e forma “se tornam parte da experiência emocional, da experiência intelectual. Existe muita coisa que não dá para padronizar e enfiar no formato eletrônico”, disse Yokota, que dá palestras sobre como decidir quando um livro infantil é mais adequado para o formato digital ou impresso.

As editoras afirmam que estão gradualmente aumentando o número de livros ilustrados impressos que são convertidos para o formato digital, mesmo sendo demorado e caro, e os desenvolvedores têm se ocupado em criar aplicativos interativos para livros infantis.

Mercado – Embora se espere que a chegada ao mercado de novos tablets da Barnes & Noble e Amazon neste trimestre aumente a demanda por livros infantis, diversas editoras suspeitam que muitos pais ainda vão preferir as versões impressas. “Claramente existe uma predisposição ao impresso”, disse Jon Yaged, presidente e editor do Macmillan Children’s Publishing Group, que lançou The Pout-Pout Fish, de Deborah Diesen, e Na Noite em que Você Nasceu, de Nancy Tillman. “E os pais são as mesmas pessoas que não terão apreensões em comprar um livro eletrônico para si mesmos.”

Isso é o que acontece na casa de Ari Wallach, empreendedor nova-iorquino obcecado por tecnologia, que ajuda empresas a se atualizar tecnologicamente. Ele lê em Kindle, iPad e iPhone, mas o quarto das filhas gêmeas está atulhado apenas com livros impressos. “Admito parecer avesso ao progresso neste caso, mas existe algo muito pessoal num livro, e não em um entre mil arquivos de iPad, algo que está conectado e é emocional, algo com que eu cresci e com que quero que elas cresçam.”

“Reconheço que, quando tiverem minha idade, será difícil encontrar um ‘livro de árvore morta’. Dito isso, sinto que aprender com livros é um rito de passagem importante, da mesma forma que aprender a comer com talheres e a usar o pinico.”

Alguns pais não querem fazer a mudança nem com os filhos em idade escolar. Alexandra Tyler e o marido leem em Kindles, mas seu filho, Wolfie, sete anos, só lê os impressos. “De alguma forma, acho que é diferente. Quando se lê um livro, um livro infantil de verdade, ele envolve todos os sentidos. Ele ensina a virar a página direitinho. Sente-se o cheiro do papel, o toque.”

Existem muitos programas que dizem ajudar as crianças a ler, por exemplo, falando uma palavra realçada ou pelas figuras. Nem todos os pais acreditam nisso. Matthew Thomson, 38 anos, executivo do Klout, site de mídia social, tentou um deles com Finn, de cinco anos. Contudo, ele acredita que o filho irá aprender a ler mais rápido com o impresso. Além disso, os recursos do iPad distraem. “Quando é hora de ir para cama e ele sabe que vou ler, meu filho diz: ‘Vamos jogar Angry Birds um pouquinho.’ Se ele for pegar o iPad, não é para ler, meu filho vai querer jogar. Assim, a concentração para a leitura vai embora.”

 

Fonte: The New York Times

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