O Corpo como Arte

A Segunda Guerra Mundial, uma das guerras mais sangrentas da história da humanidade – na qual morreram, entre os doloridos anos de 1939 e 1945, mais de cinqüenta milhões de pessoas, dentre os quais seis milhões de judeus assassinados pelo regime nazista – nos mostrou a capacidade humana de reinventar e reconstruir sua existência sobre escombros, dramas, catástrofes e as mais diversas dificuldades.

Uma nova Europa surgiu dos horrores desta guerra buscando entender a efemeridade da vida, a superação da dor, o reconhecimento da identidade e a violência da repressão. Nesse sentido, a geração pós-guerra visou, sobretudo, obter explicações para essas questões emergentes através da conquista da liberdade. O vazio deixado pelo violento ritual da guerra colocou em xeque as concepções cristãs e, nessa crise niilista, a idéia de alma como algo puro e eterno e a idéia de carne como algo impuro e degradável – elementos historicamente separados – vai dar origem a idéia de corpo carregado de matéria e de sentimentos e que, nessa nova concepção, passa a ser considerado a única propriedade e sobre a qual se deve ter total domínio.

A liberdade que se quer conquistar é, acima de tudo, a liberdade do próprio corpo, a liberdade de ser-corpo. Esse desejo vai ser logo assumido por aqueles que andam na vanguarda da história, ou seja, os intelectuais e artistas que nas suas produções vão evidenciar essa busca. Nesse sentido, surgirão os movimentos artísticos que passam a colocar o corpo e todos as suas secreções como zona artística, território da ação, dos fenômenos, dos processos e da própria obra de arte como é o caso do acionismo vienense, da performance e da body-art. Porém, deve-se ter claro que:

É evidente que a arte do pós-guerra não pode ser reduzida à performance ou às mais variadas modalidades da “arte do corpo/da dor”; é evidente também que não se deve de modo algum reduzir a arte ao nível da manifestação do retorno do recalcado. Também tem sido comum uma leitura da arte a partir de um arsenal advindo da psicanálise sem a necessária mediação com base na reflexão sobre os fenômenos da arte e da sua história. Devemos ter em mente que tanto a psicanálise como a arte possuem um desenvolvimento paralelo no século XX: e esse percurso paralelo não é nem harmônico nem epifenomênico. Mas não há dúvidas quanto ao fato de que um movimento também traduz e ilumina o outro.

No contexto das práticas artísticas voltadas para o corpo como a própria obra de arte, a Áustria será o cenário do acionismo vienense, o movimento mais contundente nesse contexto pelo seu caráter seminal e pela violência impactante de suas ações. Não será por acaso que esse movimento, provavelmente a mais significativa contribuição do país para o desenvolvimento da arte contemporânea, surja na Áustria dos anos sessenta. Um país que ficou com cicatrizes profundas dos sucessivos conflitos pelos quais passou desde o início do século, impregnando-se de conservadorismo; mas que ao mesmo tempo sempre demonstrou uma capacidade artística impressionante e muito comprometida politicamente.

 

Fonte: observacionesfilosoficas.net

 

A nVersos Editora lançará em 2012 o livro “Corpo Mídia” das autoras Helena Katz e Christine Greiner.

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