Transexualidade não é sinônimo de psicose

O transexualismo é considerado um transtorno de identidade de gênero pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ocorre quando um individuo entende que seu sexo não corresponde a sua identidade sexual.

Para conversarmos sobre o tema convidei o psicanalista Rafael Kalaf Cossi, autor do livro, Corpo em obra, lançado recentemente pela nVersos Editora.

Luciana: Como caracterizar o transexualismo?

Rafael: O transexualismo é um quadro clínico no qual o sujeito se diz padecendo da incompatibilidade entre o seu corpo (sexo) e sua identidade sexual (gênero). O sujeito se identifica com o sexo oposto ao que o seu corpo indica. No transexualismo masculino, por exemplo, o sujeito diz que reconhece que seu corpo corresponde ao corpo de um homem, porém afirma que se sente, pensa, age, veste-se etc., como uma mulher. Em muitos destes casos (mas não em todos), o transexual passa por intervenções hormonocirúrgicas para seu corpo tenha uma maior coerência com o seu gênero sexual.

Luciana: Você entende que está em jogo é um fenômeno político-social e não um transtorno psicótico?

Rafael: A psicose não é condição do transexualismo, ou seja, não é porque um sujeito apresenta a problemática transexual que isto quer dizer que ele é psicótico (apesar de este ter sido o diagnóstico clássico, que os psicanalistas lacanianos atribuíam a tais sujeitos). Tal concepção psicanalítica considerava como patológico o que fugia à matriz heteronormativa da sexualidade. Neste sentido, o transexualismo é um fenômeno político-social porque questiona as normas de poder a partir das quais os diagnósticos são feitos, debate a tendência de patologização do discurso biologizante, além de, num outro contexto, trazer à discussão pontos muito caros à psicanálise, por exemplo, como se constrói a identidade sexual, qual o papel do sexo e do gênero em tal construção, o que marca a diferença sexual e seu papel no psiquismo etc.

Cabe ressaltar que existem sim transexuais psicóticos, mas na mesma medida que existem homosseuxais e heterrossexuais psicóticos. O importante é que fique claro que não é porque o sujeito é transexual que isto quer dizer necessariamente que ele é psicótico.

Luciana: Qual o tratamento adequado, se é que há um?

Rafael: Há de se avaliar caso a caso. Existem os transexuais que só “melhoram” depois que se submetem aos tratamentos hormonocirúgicos, mas nem todos consideram tais procedimentos como fundamentais. Existem os transexuais que se contentam com a mudança de estatuto civil, ou com serem reconhecidos como um membro do sexo oposto pelos seus pares.

O tratamento psicológico também é adequado para muitos deles. Há de se investigar a singularidade por trás de cada sujeito transexual, o que há por trás da demanda de cada um deles, para, consequentemente, indicar o tratamento adequado.

Luciana: Por que o leigo confunde o transexual com o homossexual e ainda coloca no mesmo saco o homem que se veste de mulher, é preconceito?

Rafael: Penso que isto ocorre porque ainda tomamos a heterossexualidade como referência para avaliarmos o que é normal e o que é anormal, como dois blocos distintos. O “bloco do normal” corresponde à matriz heterossexual; o outro, ao que não se conforma a tal matriz, sendo encarado, portanto, como desviante, anormal e ilegítimo. Ainda prevalece a tendência a uma divisão binária entre normal e anormal, e isto é uma marca da cultura ocidental moderna, que se pauta no discurso biologizante como forma de poder.

Por outro lado, acredito que à medida que as pessoas tiverem mais informação, poderão ter uma idéia mais precisa do que seja um sujeito transexual. Muitos confundem o transexualismo com a homossexualidade—eles desconhecem que uma prática sexual ou a escolha de objeto sexual não são critérios para o diagnóstico do transexualismo; tanto é que existem transexuais heterossexuais e transexuais gays, por exemplo.

Luciana: Como você pensa que se desenvolve a identidade sexual?

Rafael: Esta é uma questão muito controversa. Não existe consenso dentro da psicanálise a esse respeito. Freud salientou a importância do complexo de Édipo para tal desenvolvimento. Stoller problematizou a visão freudiana, discordou dele em pontos cruciais e construiu sua própria teoria. Muito ainda há de ser pesquisado. Inclusive estou escrevendo um projeto de pesquisa para me candidatar ao doutorado que versaria mais ou menos sobre este tema, a teoria dos gêneros e a psicanálise.

Luciana: Em que contexto esse livro nasceu?

Rafael: Este livro decorre da minha pesquisa de mestrado defendida em 2010 no Instituto de Psicologia da USP, intitulada “Transexualismo, psicanálise e gênero: do patológico ao singular”. Rafaela Carvalho, então jornalista da agência USP de notícias, entrou em contato com minha pesquisa e me entrevistou. Tal reportagem foi repassada para várias agências de comunicação, inclusive a Folha de São Paulo on-line—foi justamente tal matéria que o Dr. César da editora nVersos leu e se interessou em transformar a pesquisa num livro, o que foi uma grande honra e alegria para mim.

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Fonte: Folha.com

Leia a entrevista original em Folha.com

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