Brasil tem exposição mais visitada do mundo, e críticos explicam fenômeno

A mostra 'O mundo mágico de Escher', no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro: média foi de 9.677 visitantes ao dia (Foto: Divulgação)

Mostra ‘O mundo mágico de Escher’, no CCBB-RJ, ficou no topo do ranking.
Curadores falam ao G1 e analisam atual apetite brasileiro pelas artes.

Deu na “The Art Newspaper”, publicação norte-americana especializada em artes que faz um levantamento anual, desde 1996, das exposições mais vistas do planeta: a mostra “O mundo mágico de Escher”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro entre os meses de janeiro e março do ano passado, ficou no topo do ranking relativo a 2011, tendo recebido uma média de 9.677 visitantes ao dia.

Além da exibição de gravuras originais, desenhos e instalações do holandês M.C. Escher (1898-1972), outras duas exposições realizadas na unidade carioca do CCBB também aparecem no top 10 divulgado: “Oneness”, da artista japonesa Mariko Mori, com 6.991 visitantes diários (7º lugar); e “Eu em Tu”, da americana Laurie Anderson, que atraiu média de 6.934 pessoas por dia (9º lugar) — todas gratuitas.

Mas o que pode ter despertado o “incrível apetite por arte contemporânea” nos brasileiros, como descreve a revista americana? Especialistas ouvidos pelo G1 creditam o fenômeno a vários fatores. Para o carioca Fernando Cocchiarale, crítico e professor de Filosofia da Arte do Departamento de Filosofia da PUC-RJ, o sucesso das exposições do CCBB está diretamente relacionado ao trabalho de divulgação das instituições culturais junto à mídia.

“As instituições vêm batalhando arduamente atrair público. Para isso utilizam-se de serviços de divulgação, assesoria de imprensa e de comunicação. Isso cria uma situação favorável, que torna natural a busca de informações por arte contemporânea. Mas acho que a grande maioria das pessoas que visita uma exposição como a do Escher sente-se atraída pelo espetáculo, pela publicidade. Não necessariamente está sendo formado um público cativo e aficionado pelo assunto. Ainda assim, acho tudo muito positivo”, diz Cocchiarale, que também é professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio.

Quantidade e qualidade
Investimentos em arte-educação, a boa situação econômica do país (que torna livros, obras, discos e filmes mais acessíveis) e a gratuidade das exposições também criam condições para o incremento de público, segundo Pieter Tjabbes, curador da mostra que liderou o ranking da “The Art Newspaper”.

A Sala da Relatividade foi uma das atrações de destaque da exposição do artista holandês Maurits Cornelis Escher (Foto: Divulgação)

“Além desses fatores, também temos investido bastante num novo conceito de exposição. Utilizamos recursos para que as pessoas se sintam conectadas e envolvidas mais facilmente com o que está sendo exibido. Fizemos assim com as mostras de Escher e da Índia. Com seções lúdicas e interativas, que se comunicam mais com os visitantes, é que estamos atingindo novos públicos”, explica Tjabbes, elogiando a quantidade e qualidade de exposições que o Brasil têm recebido ultimamente.

“A qualidade média das exposições têm subido muito. Hoje o Brasil não deve nada ao exterior. As mostras aqui são de altíssima qualidade. Além disso, a oferta de exposições, principalmente no Rio e em São Paulo, é fantástica. Eu mesmo, que sou do ramo, não dou conta de ver tudo”, destaca.

Rio e São Paulo
Analisando o ranking mais de perto, um outro dado relativo ao Brasil também chama a atenção. Enquanto a unidade carioca do CCBB aparece três vezes entre as dez exposições mais visitadas, o centro cultural paulistano surge apenas em 23º lugar, também com a mostra do ilustrador holandês. Nada fora do comum, de acordo com o curador independente, jornalista e crítico de arte Marcus Lontra.

“Historicamente, a classe média carioca sempre foi uma grande consumidora de cultura, diferentemente de outras que se estruturaram posteriormente no Brasil, como a paulistana ou a mineira. Porque, no Rio, não é preciso ser rico para isso. Os cariocas têm essa peculiaridade e sempre participaram de atividades artística e culturais”, ressalta Lontra, curador das exposições “Niemeyer: arquiteto, brasileiro, cidadão” e “Onde está você, Geração 80?”, relembrando outras mostras de sucesso no país.

A mostra gratuita 'O mundo mágico de Escher' reuniu cerca de 92 obras, entre gravuras e desenhos (Foto: Divulgação)

“Isso acabou se refletindo em diversos momentos, como nas exposições de Monet e Rodin, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio, nos anos 90. O número de visitações na cidade eram sempre superiores ao de São Paulo, apesar da capital paulista ser uma cidade mais populosa”, analisa o jornalista, que inaugura no dia 2 de junho, no Centro de Artes Hélio Oiticica, no Centro do Rio, a mostra “Espelho refletido”, reunindo obras de 38 artistas contemporâneos brasileiros.

Continuidade
Quem também opina sobre a diferença de público da exposição “O mundo mágico de Escher” nas duas cidades é o gerente de programação do Centro Cultural Banco do Brasil no Rio, Francisco Ribeiro. Ele considera as características entre as duas unidades como um possível motivo.

“São características geográficas diferentes. Talvez no Rio o acesso ao CCBB seja mais fácil. E, por ser maior, a gente pode abrigar mais pessoas diariamente. Acredito que isso possa se refletir neste número. Porque, apesar da imponência do nosso prédio carioca, queremos mostrar que essa pode ser uma casa de todos”, diz Ribeiro.

Apesar da atual notoriedade brasileira no campo das artes e da festa em torno do levantamento divulgado pela revista “The Art Newspaper”, ainda é cedo para comemorar, como observa Fernando Cocchiarale. O crítico adverte: “Não acho que estes números sejam resultados consolidados. Este trabalho de divulgação e publicidade da arte tem que continuar. Aí, sim, o público cativo também vai aumentar”.

Fonte: G1

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