O ranger de dentes no sorriso

Segundo livro de Flávio Ricardo Vassoler, “Tiro de Misericórdia” apresenta aforismos e ensaios reunidos como estilhaços
(Reprodução da Revista Cult/UOL).

Caio Sarack

Imagine-se cercado por escombros. O entulho e o cheiro de pólvora no ar fazem você ranger os dentes como se esperasse uma próxima explosão. A expectativa e a memória se unem num instante só, não há escapatória a não ser a ideia de escapar, você quer fugir, quer levantar e desaparecer; meramente pensar nessa possibilidade, no entanto, faz com que você consiga juntar o último acúmulo de forças: o fôlego vira uma utopia, o tiro vira a misericórdia.

O segundo livro de Flávio Ricardo Vassoler, Tiro de Misericórdia, editado pela nVersos e lançado no fim de agosto na Livraria Martins Fontes Paulista, apresenta aforismos e ensaios que foram reunidos como estilhaços. É impossível unir os cacos e voltar ao objeto intacto, se há completude ela ainda nos remetera ao estilhaço; é preciso vê-lo como tal. E como estilhaços, corta a carne do imaginário do leitor.

O tom quebradiço, o som estalado que a leitura de Tiro de Misericórdia nos apresenta vai de encontro e colide com uma outra forma de literatura. Há, é possível dizer pedagogicamente, dois modos de reconhecer os estilhaços que a literatura recolhe e assimila: à maneira dos que apreendem os cacos como coisas em si sem perguntar de onde vieram e quais histórias estes pedaços partidos nos contam de seu passado, e à maneira dos que enxergam nestes cacos a história de sua quebra, o anúncio da ruptura e seus sentidos. Tiro de Misericórdia faz parte deste último modo, o autor quer entender a natureza da quebra, quer investigar o mais remoto do homem contemporâneo.

No exemplar que tenho em mãos o autor me escreveu: “que este livro te faça caminhar pelos escombros das afinidades eletivas que envolvem a misericórdia e o paredón”. O convite pode ser estendido a todos. Boa imersão. Leia a seguir a entrevista com o autor.

CULT – Flávio, como se relacionam a escrita e o sentido neste seu livro?

Flávio Ricardo Vassoler – A relação entre escrita e sentido tem profundas implicações na vida de um escritor. Em termos gerais, poderia dizer que o ápice do processo de reconhecimento do escritor como criador se dá quando já não há praticamente clivagens entre o caos da vida anímica e a forma e o conteúdo pelos quais a literatura vem à tona.

Então, num primeiro momento, creio que é possível falar sobre as relações entre escrita e sentido como a construção da subjetividade do escritor – construção subjetiva que, a bem dizer, dialoga com toda a tradição da literatura e de suas interfaces para se construir de fato. E isso, por sua vez, nos leva a um desdobramento outro da sua pergunta sobre escrita e sentido.

Parece-me que, em grande medida, a contemporaneidade vem perdendo o ímpeto de acompanhar o movimento totalizante da história. Em termos literários, muitas narrativas se fecham sobre si mesmas, como se o fragmento e o estilhaço, ainda que esparsos, não tivessem sido espargidos a partir da ruptura de um todo original. É bem sintomático que, no período em que o capitalismo mais se mostra totalizante – e totalitário, por meio da democracia de massas da indústria cultural que só agora se consolida como Ideia historicamente configurada –, a arte tenda a se esgueirar sem pensar sobre si mesma, sobre suas contradições objetivas, sobre a (im)possibilidade de acompanhar os sentidos e os ressentimentos da utopia, sem dialogar de forma rente com a barbárie socialmente (re)produzida como segunda natureza.

Não posso, de forma alguma, compactuar com esse tipo de postura diante do mundo. E me refiro a essa tensão em termos estéticos, filosóficos e políticos. Isso, porém, não quer dizer que minha literatura propugne, a priori, por uma posição engajada em relação às tensões da contemporaneidade. Isso quer dizer que a arte, se quiser desvelar as contradições do real, precisa pensar inclusive a contrapelo de si mesma – pensar a renitência histórica para além do ímpeto de emancipação; narrar os resquícios de Pandora justamente onde já não parece haver qualquer possibilidade de movimento.

Como você encara a feitura da literatura? Como ela nos ajuda na tarefa de entender o homem e a mulher contemporâneos?

Em Tiro de Misericórdia – e também em meu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião – as relações entre sadismo e masoquismo, misericórdia e opressão, angústia e expectativa se enredam a narrativas, ensaios e aforismos que procuram – e falo agora também como leitor – caminhar entre os escombros de uma época que considero sumamente intersticial, entre dois momentos. Ainda não conseguimos nos recuperar propriamente da derrocada da URSS, tentativas incipientes de novas contraposições políticas vêm à tona, mas as próprias categorias imaginativas parecem enredadas por uma forma de pensar o e agir no mundo que reduzem a práxis a uma mera praticidade.

Isso é muito perceptível na literatura que se propõe ao consumo imediato, que não mais procura mobilizar o leitor para além de seus parâmetros rotineiros de recepção. Editorialmente, a experimentação é proscrita pelo fato de a leitura ter que ser asséptica a ponto de alçar o leitor justamente ao comezinho de seu tempo livre – é assim que a arte, reduzida a entretenimento, reitera o mantra da resignação.

Nesse sentido, obras que procurem articular diálogos com outros escritores; obras que tentem trazer posicionamentos estético-filosóficos diversos em relação a uma certa tradição literária, ora, tais obras parecem rotuladas e rotuláveis, a priori, como elitistas e desconectadas da realidade factível do público.

Tiro de Misericórdia, eu diria, não é um livro palatável para os leitores voltados a um mero sobrevoo da experiência humana. Ele tende a demandar uma postura contínua de quebra do distanciamento estético – que o leitor se aproxime das tensões, que o leitor as incorpore, que se pergunte sobre os desatinos das personagens, dos filmes, dos autores e das obras com as quais meu segundo livro dialoga. Que não haja dogmatismo, que o pensamento possa se voltar contra si mesmo, em várias direções, para que cada ponto de penumbra ilumine o que a luz à queima roupa só faz cegar. (Faz parte do livro a menção a um bom e velho provérbio chinês que assim sentencia: “O lugar mais obscuro fica justamente sob a lâmpada”.)

Assim, sua pergunta também mobiliza a noção de que o leitor pode vir a se sentir cúmplice. Creio que, dialeticamente, isso também se estende ao escritor. É precisamente por isso que a arte não deve estacar diante de quaisquer escrúpulos partidários. Se não quisermos repetir experiências supostamente emancipatórias que se reverteram em distopias, é preciso que conheçamos os escaninhos mais recônditos de nossas contradições. A literatura, assim, se imbui do sentido da perquirição  – as narrativas se animam com as perguntas para além da ossificação das respostas.

Tiro de Misericórdia
Flávio Ricardo Vassoler
nVersos
256 págs. – R$ 45

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