A expressão da individualidade em Luis Antônio – Gabriela

“Eu não soube nascer, mãe.”

Não existe relação humana que seja simples. Não existe relacionamento que não seja complicado. Isso acontece, entre outros motivos, porque a realidade é subjetiva. Independente de como o mundo seja efetivamente, cada indivíduo interage com ele e o interpreta de sua forma peculiar. E a única coisa que legitima a subjetividade de cada indivíduo é a alteridade, a oposição dessa interpretação de mundo com a dos outros. Mas é também essa alteridade a principal causa de conflitos das relações humanas, a tentativa de imposição de uma visão subjetiva sobre outra. Como bem observou Sartre: “o inferno são os outros”, para o bem ou para o mal, é através deles e apesar deles que construímos e expressamos nossa visão de mundo e de nós mesmos.

9788564013537Mas e quando o que se torna o centro desse conflito, sua motivação, é especificamente a nossa visão sobre nós mesmos? Quando a tentativa de imposição de outros da visão deles sobre nós (ou a não aceitação deles da nossa) é o que desencadeia antagonismos e até hostilidades? Exemplos dessa pergunta se tornam cada vez mais presentes no contexto social em que vivemos, com a maior visibilidade conquistada por pessoas homossexuais e transexuais, e a consequente não aceitação da expressão de sua individualidade por família, amigos e sociedade.

Luis Antônio-Gabriela é um livro sobre esses conflitos, culpa e como a compreensão da subjetividade é o presente de maior respeito que um ser humano pode ofertar a outro. Escrito pelo dramaturgo Nelson Baskerville no formato de uma peça de teatro, a obra é um pedido de desculpas e ao mesmo tempo uma expiação da relação do autor com o irmão mais velho, o Luís Antônio do título, homossexual nascido em 1953 e que viveu com a família conservadora até os 30 anos, quando deixou a casa dos pais e desapareceu por três décadas. Anos depois, a irmã dos dois viria a encontrar Luis Antônio, agora finalmente expressando sua identidade de gênero como Gabriela, fazendo shows em cabarés na Espanha. Baskerville e Gabriela nunca se reencontrariam, e a peça é a maneira que o dramaturgo encontrou para pedir desculpas por ele e por sua família nunca terem permitido a Gabriela o mínimo e o máximo que ela poderia pedir: ser ela mesma.

Publicado pela editora nVersos, A singularidade da vida de Gabriela se reflete também no projeto gráfico do livro, que faz uso de cores fortes e contrastantes, fonte incomum, papel Kraft, verniz nas páginas e outros recursos que tornam a leitura única e exótica como essa trajetória merece.

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