Livros em papel ainda encantam crianças e adolescentes nascidos na era digital

O sentimento de que a invasão de tablets, smartphones e aplicativos sociais pode estar tomando o lugar dos tradicionais livros em papel entre crianças e adolescentes se desfaz imediatamente quando se chega à 17ª Bienal do Livro do Rio. Nos três pavilhões do Riocentro, milhares de crianças, quase todas integrantes de excursões promovidas pelos colégios, tomam o espaço e enchem o ambiente de alegria. Os pequenos lotam as livrarias, principalmente aquelas com temáticas infantojuvenis.

Crianças marcam presença na 17 Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Crianças marcam presença na 17ª Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro (Fernando Frazão/Agência Brasil)Fernando Frazão/Agência Brasil

A explicação para essa preferência pelos livros em papel em tempo de redes sociais pode estar tanto no tipo de narrativa que o livro oferece, sem distrações e mais aprofundada, quanto na capacidade das novas gerações de segmentar a atenção para várias mídias ao mesmo tempo, algo que é difícil para os mais velhos.

A opinião é da diretora da Bienal, Tatiana Zaccaro, que vê grande espaço para o crescimento dos livros na atualidade, em todo o mundo, apesar das tecnologias que cada vez mais fazem parte da vida de todos.

“A cada ano, temos mais visitantes, e o número de livros comprados aumenta. E temos algo, que está ocorrendo no Brasil e no mundo, que são os adolescentes lendo bastante. A média de livros vendidos tem aumentado exatamente nessa faixa etária. Isso leva a acreditar que, mesmo competindo com toda a tecnologia que faz parte de sua vida, os adolescentes, que nasceram na era das telas de toque e da internet, não abandonam os livros. Eles querem o autógrafo, querem conhecer o autor. Isso mostra que o livro está mais vivo do que nunca”, disse Tatiana.

Uma das formas de garantir essa simbiose entre mídias de papel e digital é oferecer livros desde muito cedo às crianças, que assim crescem com amor às páginas impressas.

A dica é da empresária Vanessa Mazzoni, que visitava a bienal em companhia das filhas Ana Clara, de 11 anos, e Larissa, de 5 anos. “A Ana Clara devora livros, a pequenina ainda não lê, mas está indo pelo mesmo caminho. A gente incentiva. Presentes de aniversário são sempre livros, pois ela já está na adolescência. Elas têm tablet, mas não têm o hábito de ler nele, tem que ser livro de papel mesmo”, afirmou Vanessa.

A filha Ana Clara, que está no sexto ano, explicou como consegue se dividir entre as mídias digitais e as páginas impressas. “Eu fico dividindo o meu tempo. Fico um pouco lendo, um pouco usando o celular e dá para fazer tudo. Se eu gosto da história e do autor, eu procuro na internet sobre os outros livros dele e aí compro para ler. Eu gosto de ver o livro, a capa, acho legal”, contou.

Alunos do Circo Social Crescer & Viver visitam a 17 edição da Bienal Internacional do Livro, que acontece Riocentro, na Barra, Rio de Janeiro (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Alunos do Circo Social Crescer & Viver visitam a 17ª edição da Bienal Internacional do Livro, no Riocentro, na Barra, Rio de Janeiro (Fernando Frazão/Agência Brasil)Fernando Frazão/Agência Brasil

O amor pela leitura às vezes independe de classe social e condições de adquirir livros que, muitas vezes, podem ser difíceis de se encaixar no orçamento familiar. Isabele Vitória da Silva Santos Faria, de 10 anos, integrante do projeto social Circo Crescer e Viver, aproveita o tempo extra na escola para se dedicar à leitura. O hábito, segundo ela, veio dos pais. A mãe é cozinheira e o pai, segurança, mas sempre tiveram livros em casa. “Eu gosto mais de ler contos de fadas e ficção. O tablet compete com os livros às vezes, mas minha mãe diz que é preciso uma hora para cada coisa”, disse Isabele.

Colega no circo, Pablo Richard, de 11 anos, gostaria de ter mais livros em casa. Ele mora com a mãe, que vende salgados, e não dispõe de tablet nem celular. Diz que prefere ler em papel mesmo, mas reclama do preço. “Às vezes, vou à biblioteca da escola e pego o maior livro que tem. Gosto de contos de fadas e histórias de terror. Pena que os preços aqui na Bienal são o dobro do que eu trouxe em dinheiro”, lamentou.

Mesmo para quem trabalha nas livrarias, passando o dia entre prateleiras e pilhas de livros, a questão financeira acaba sendo um limitador. Para Ivisson Laurent dos Santos Silva, o acesso a determinadas obras, principalmente aos livros técnicos, está distante da realidade. “Os livros ainda são inacessíveis para a maioria dos brasileiros. Aqui pagamos muitos impostos e tributos. Apesar de eu trabalhar em uma livraria, tenho que optar em fazer as coisas pessoais ou comprar um livro. Entre o pão e o livro, ganha o pão”.

Fonte: https://goo.gl/mL3UPC

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