Angela Merkel: O anjo protetor dos refugiados

Ao acolher imigrantes, a chanceler alemã renova sua imagem e a liderança da Alemanha na Europa.

Angela Merkel, visitava um centro de registro de refugiados em Berlim quando foi cercada por dezenas de imigrantes, a maioria sírios. A turma pedia para tirar fotos com ela. “Merkel, você é nossa mãe!”, gritavam alguns. Merkel topou e deixou-se fotografar. Dois dias antes, Merkel abrira uma “exceção” às regras de asilo da União Europeia para receber mais de 20 mil imigrantes sírios presos na Hungria. Sim. A senhora simpática que posava para as selfies era a mesma Angela Merkel que, recentemente, fez uma imigrante palestina de apenas 15 anos chorar, ao vivo, em um programa de TV com estudantes. A jovem Reem, de 15 anos, contou a Merkel que sua família esperava havia quatro anos por um visto permanente de residente. “É muito difícil ver os outros aproveitar a vida e você não poder”, disse Reem. Merkel respondeu que a Alemanha não poderia receber todos os refugiados palestinos. “Vocês não podem vir todos”, disse.

As lágrimas instantâneas de Reem correram o mundo e arranharam ainda mais a imagem de Merkel. A carrasca que, segundo seus detratores, empurrava a Grécia para fora da União Europeia (UE), rumo ao precipício financeiro, também fechava a porta para migrantes necessitados. Não aliviava nem na TV, diante de uma garotinha. Passados três meses, naquele campo de refugiados, Merkel deixou de ser a bruxa desalmada e ascendeu aos céus como o anjo piedoso, a mulher que abriu as portas da Europa para milhares de pessoas na pior crise de imigração na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

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Considerada a política mais poderosa da Europa, Merkel nunca se mostrou inclinada a ações corajosas em seus dez anos de governo. Na crise da Ucrânia e na anexação da Crimeia pela Rússia, Merkel adotou um tom conciliador quando muitos bradavam pela beligerância. Na crise da Grécia, manteve-se irredutível na punição financeira aos gregos, quando muitos pediam clemência. Desta vez, diante de uma multidão de africanos e árabes retidos em ilhas gregas e estações ferroviárias que poderiam lembrar campos de concentração de 70 anos atrás, Merkel se colocou na vanguarda. Ao denunciar xenófobos e sinalizar a prontidão da Alemanha para receber refugiados, ela não apenas agradou a seu eleitorado, mas rememorou os altos ideais europeus. “Se a Europa falhar na questão dos refugiados, então não será a Europa que desejávamos”, disse Merkel.

Uma pesquisa de opinião mostra que 59% dos alemães concordam em aceitar os refugiados e 96% acreditam que quem foge da guerra tem direito a asilo. Quando milhares de imigrantes em uma estação de trem na Hungria gritaram “Alemanha, Alemanha, nós vamos para a Alemanha”, no início do mês, centenas de voluntários alemães foram recebê-los com doces, brinquedos e sorrisos. Era um esforço de praticar a “cultura de boas-vindas”, a Willkommenskultur.

Receber imigrantes com tapete vermelho em vez de policiais faz sentido para a popularidade de Merkel e para a Alemanha, tanto em termos propagandísticos quanto econômicos. A Alemanha tem uma das populações que envelhecem e diminuem mais rapidamente na Europa. Segundo a Comissão Europeia, em 2060 o país terá 10 milhões de pessoas a menos, ou seja, encolherá de 81,3 milhões para 70,8 milhões de habitantes. Por ano, quase 50 mil postos de trabalho ficam vagos, pela simples falta de gente para preenchê-los. “A Alemanha precisa de trabalhadores e de imigrantes, se quiser manter sua pujança econômica”, afirma Marcel Fratzscher, diretor do Instituto Alemão para Pesquisa Econômica.

Acolher imigrantes também ajuda a Alemanha a exorcizar um pouco o passado nazista, responsável por milhões de fugitivos. A Segunda Guerra Mundial deixou milhões de pessoas vagando pelo continente devastado. Polônia, Tchecoslováquia e União Soviética deportaram mais de 14 milhões de alemães. Milhões de ucranianos, sérvios e outros foram expulsos de suas casas. O projeto de uma união de países europeus nasceu após a guerra, com a promessa de solidariedade para os perseguidos e oprimidos. Em 1951, um grupo de diplomatas se reuniu em Genebra para definir como absorver tantos refugiados. Na ocasião, a Assembleia-Geral das Nações Unidas definiu a Convenção dos Refugiados. Por ela, seus signatários se comprometiam a avaliar as reivindicações feitas por qualquer pessoa em seu território e conceder asilo sempre que um refugiado tivesse “receio fundado de ser perseguido” em seu país de origem. “Muitos países europeus têm violado a Convenção e manchado sua história”, afirma o historiador britânico Timothy Garton Ash. “Os refugiados da Síria, do Afeganistão, da Eritreia estão refazendo as rotas usadas pelos refugiados europeus nos anos 1940, que fugiam da Alemanha nazista.”

Por seu papel de líder do bloco, a atitude da Alemanha já provocou mudanças. A Comissão Europeia propôs realocar 160 mil refugiados que estão na Grécia, Hungria e Itália em outros países europeus e criar um novo sistema permanente para realocação de imigrantes. Hoje, refugiados podem pedir asilo no país europeu em que pisaram pela primeira vez, em geral Itália ou Grécia. Esses países estão sobrecarregados, e a maioria dos refugiados quer ir para a Alemanha, a Grã-Bretanha ou a Escandinávia. Mas a Alemanha está fazendo mais do que seu quinhão, enquanto outros países fazem menos. Por isso, Merkel pediu para outros países da União Europeia compartilharem o fardo.

Um consenso ainda está distante. A disparidade entre os ideais da Comunidade Europeia e as questões nacionais dificulta um acordo. Em um bloco onde a moeda é comum, mas as dívidas dos países são individuais, a política de imigração é apenas uma das questões que tornam um consenso insustentável. Para a Alemanha, por exemplo, é ótimo receber milhares de refugiados sírios, em geral trabalhadores qualificados, que fugiram de centros urbanos por causa da guerra civil. Mas, enquanto a Alemanha tem empregos sobrando para eles, a Espanha tem um alto índice de desemprego; enquanto a população alemã diminui, o Reino Unido vai na direção oposta e se  tornará o país mais populoso da União Europeia até 2060.
Acolher imigrantes, porém, não é o mesmo que integrá-los. A lei alemã dá o básico para a existência, como um teto e alimentação para refugiados registrados, mas nega o direito de trabalho, porque parte do pressuposto que os refugiados voltarão a seus países. A questão do visto de trabalho, claro, deverá ser modificada, num país que necessita tanto de mão de obra qualificada – muitos refugiados sírios têm nível superior. O reconhecimento do pedido de asilo pode demorar mais de um ano. A Alemanha é um dos países mais difíceis para se conseguir a cidadania por tempo de residência – oito anos, atrás apenas da Áustria. As fotos que Merkel topou tirar com os imigrantes são uma importante mudança de atitude para o bloco lidar com o maior deslocamento de pessoas desde 1945. A política que ela promete iniciar será um teste profundo para os valores europeus e para a capacidade dos países de trabalhar em conjunto.

Fonte: http://goo.gl/Y7qr72

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