Faturamento no setor de livros é quase obra de ficção

Receita aumenta, mas abaixo da inflação e é sustentada por publicações de colorir; pesquisador vê oportunidade para o setor com alta do dólar.

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Vendas de livros no País aumentaram 4,6% de janeiro a outubro de 2015 em comparação com o mesmo período do ano anterior, mas faturamento cresceu apenas 5%, sem atualização pela inflação
Os brasileiros compraram 4,6% mais livros de janeiro a outubro de 2015 em relação ao mesmo período do ano anterior, índice que parece obra de ficção para um ano de crise econômica em um País de poucos leitores. Na verdade, o indicador não é garantia de ano melhor para o mercado editorial, que teve elevação de 5% no faturamento no mesmo comparativo, sem atualização pela inflação, o que indica retração em números reais. Os dados são do Painel das Vendas de Livros do Brasil, divulgado em novembro passado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e o Instituto de Pesquisa Nielsen.
Prova de que o maior volume não representa faturamento melhor é que o tíquete médio das publicações vendidas em 2014 era de R$ 36,81 e passou a R$ 36,97 em 2015, praticamente o mesmo valor. No entanto, apesar de a Nielsen não divulgar números deflacionados, a alta dos preços para artigos de leitura medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial, foi de 7,14% em 12 meses até outubro, maior do que os 5,0% da rentabilidade do setor.
O executivo responsável da Nielsen Bookscan para o Brasil, Ismael Borges, que fala pelo SNEL, afirma que o mercado editorial precisaria de resultado 15% melhor em novembro e dezembro do que nos meses de 2014, somente para empatar com a projeção com a qual trabalharam para o Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 2015, de queda de 3,5%. “A Black Friday, famosa pela liquidação de produtos, tradicionalmente contribui com volume, mas não com valor”, diz.

FEBRE COLORIDA
E poderia ser pior. Sete em cada dez não leram um livro sequer em 2014, segundo o estudo “O hábito de lazer cultural do brasileiro”, divulgado em abril pela Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ). O que, de certo modo, ajuda a explicar por que os best sellers do ano no País quase não tinham palavras. “A participação dos livros de colorir teve uma representatividade extremamente importante no primeiro semestre e chegou a ser de 20% em uma das semanas. Mas foi uma febre como outras”, explica Borges.
De acordo com a pesquisa, o mercado de obras de não ficção trade, que são assuntos gerais e incluem livros de colorir e de receitas, ganhou participação 11,1% maior em 2015 ante 2014. Todos as outras divisões perderam espaço, com destaque para os de ficção (-4,6%), os de não ficção especialistas (-3,6%) e os infanto-juvenis e educacionais (-3,2%). “Assistimos a uma queda nas vendas de livros infanto-juvenis, embora seja um dos gêneros que mais cresceram nos últimos anos”, afirma o executivo da Nielsen, informação que ele considera importante para o ponto da virada na história das editoras nacionais.

Autoajuda ao setor
Livros como a série Harry Potter criaram o que ele chama de leitores “adultos jovens”. Ainda interessado por leitura, esse público busca novidades e novos autores. Ao mesmo tempo, a situação econômica nacional levou à disparada do dólar, o que dificulta que as editoras brasileiras tenham maior custo para comprar direitos de livros no exterior e cria uma oportunidade. “Isso beneficia novos autores nacionais, de preferência jovens, que estão na moda”, conta Borges.
Porém, diz que as editoras precisam reaprender a promover a própria literatura. Ele cita novos fenômenos de vendas chamados de “crossmedia”, ou que migram de um meio para o outro. Um exemplo são os blogueiros que conquistam fãs e lançam livros. “É uma oportunidade. Isso está mudando o nosso modelo de definição de autores. Os editores nacionais terão de fazer algo que estão acostumados a comprar pronto e é preciso trabalhar esses editores”, diz, ao completar que não faz juízo de valor sobre o tipo de literatura, mas que todo incentivo à leitura cria novos consumidores.

 

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