‘Hospital’ é para atender livros danificados

A publicação que está com a capa rasgada, com a folha descolada, suja ou com qualquer alteração não original ganha vida e vai para UTI da biblioteca
Rita de Cássia Cornélio
João Rosan
 

Hospital do Livro - Biblioteca de Garça

Hospital do Livro – Biblioteca de Garça 13/1/2016 Na foto: Maria Zelene Santana Melo

Maria Zelene Santana Melo faz o papel de “enfermeira” no Hospital do Livro, onde são recuperadas as publicações

O livro que está com a capa rasgada, com as folhas descoladas, sujo ou com qualquer alteração não original ganha vida e vai para o hospital. A cena é emocionante para quem valoriza os livros ou para quem como as crianças encontram neles uma história encantadora. O livro ganha braços e pernas e vem coberto com um lençol. Passa por uma enfermeira que analisa seu estado, faz a ficha e entrega para a cirurgiã. O diagnóstico é feito e começa o tratamento na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O cenário contribui para ativar a emoção. O projeto da biblioteca de Garça (70 quilômetros de Bauru) tem por finalidade fazer crianças e adolescentes respeitem os livros e os conserve.

Premiado pelo Ministério da Cultura em 2014, no Projeto de Inovação e Boas Práticas em Bibliotecas Públicas em quarto colocado no Brasil, com a média 9,98, o “Hospital do Livro” foi idealizado pela bibliotecária Rosane Fagotti Voss que há 33 anos trabalha ao lado dos livros. “No ano anterior apresentei o projeto no Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas na linha de sustentabilidade. Quando ganhei o prêmio meu coração disparou em emoção. Pude transformar um sonho em realidade. Ganhamos R$ 32 mil e a sala acanhada se transformou em um ‘verdadeiro’ hospital.”

A bibliotecária ressalta que dar vida ao livro foi dar uma ‘pitada’ de realismo na situação. “A criança trabalha muito com o concreto. Ela precisa vivenciar o concreto. A criança chega e vê a maletinha de primeiros socorros e associa à realidade. Toda criança vai ao médico e todas  passam, em algum momento por um hospital, então para que ela fizesse uma associação criei o hospital lúdico.”

A criança entra na história e vivencia o ‘sofrimento’ do livro. “No hospital lúdico ela entra na história. Na verdade quando ela entra no hospital do livro ela entra numa história. A doutora livro se caracteriza. As caixinhas são como os quartos de um hospital e a criança vivencia todas as etapas da encadernação por meio de uma contação de história. A farmacinha tem todos os fracos em miniatura. Fica um ambiente como minihospital, a imaginação infantil aflora e ela entende isso como um momento lúdico. Transformar o ensinamento é a proposta para ensinar. É conscientizar de forma lúdica e prazerosa. Ela sai vendo o livro como um personagem.”

Reduzir gastos com consertos e conscientizar a criança sobre como tratar o livro apresentaram resultados positivos desde a implantação do projeto, em 2011. “O livro é muito usado aqui na cidade. A biblioteca tem um acervo de 37 mil livros para 45 mil habitantes. Como o papel é perecível tínhamos um gasto médio de R$ 500/mês com conservação e encadernação. A média diária de empréstimos de livro é de 70 exemplares. Depois do hospital do livro reduzimos de 40 a 50% de livros danificados, especialmente os infantis e juvenis. Recebemos 4.500 crianças/ano. Em quatro anos são mais de 15 mil.”

O “Hospital do Livro” trabalha três vertentes, explica a bibliotecária. “Trabalhamos a sustentabilidade, a cidadania e a questão econômica. “As crianças e adolescentes aprendem a cidadania porque a biblioteca é pública e todos têm direito ao acesso. A questão econômica, de cuidar daquilo que é público, o compartilhar, o dar oportunidade para todos usufruírem do conhecimento. Desenvolvemos nelas o sentimento de cuidar daquilo que lhe faz bem. A informação é um bem que ninguém lhe tira. Conhecer o “Hospital do Livro” é abrir a  janela da imaginação. Quando eles observam o livro na maca, as meninas com o jalecos, a maletinha de socorro, eles se encantam.”
Quem não cuida é convidado a repor livros

Os livros da biblioteca são emprestados para aqueles que querem ler com o livro na mão, afinal há outras opções. “Quando entregamos o livro explicamos que  ele não pode ser danificado. Na devolução  se ele voltar danificado ou sujo convidamos a pessoa a repor um livro. Trabalhamos com as novas tecnologias, CD, DVDs e e-books. Vamos  implantar uma biblioteca digital, mas o livro permanece por uma opção de gosto, de leitura de suporte, mas o papel é algo que perpetua. Folhear o livro é prazeroso,” explica a bibliotecária Rosane Fagotti Voss.

Ela frisa que os leitores de Garça solicitam novos exemplares de obras recentes. “Temos a solicitação constante para comprar novos livros. Há muitos anos ouço dizer que o livro vai acabar. Vieram os disquetes e ficaram ultrapassados. A tecnologia caminha a passos largos. O livro vai permanecer. Temos que ficar atentos para não ter uma biblioteca arcaica que funciona como um depósito, com tudo velho. Temos que ter livros novos, MP3, DVD, CD, audiolivros, e-books.”

As boas práticas de ensinar a comunidade a conservar  livros é uma constante na biblioteca, explica Rosane Voss. “Até com os nossos funcionários são orientados para que ao receber os livros não coloque-os em pilhas. Coloque  o dorso de um alternando com a outra parte do livro. Ao guardá-los não apertá-los para que, na hora que for tirar, não danifique a lombada. E não deixar os livros próximos ao sol e incentivar os sócios a não molhar.”

Na sessão de contos os funcionários da biblioteca explicam os cuidados que temos que ter com os livros. “Em 2001, criamos um setor de pequenos reparos na biblioteca onde tínhamos uma pessoa especializada em encadernação que consertava os livros. Isso foi até 2011 quando senti que nós podíamos ter uma ação reparadora. Tinha que montar uma ação educativa e preventiva. Foi quando criei  o hospital.”
Livro levado na maca

Marinês Soriano é funcionária da biblioteca e encarregada de observar todos os livros das estantes e selecionar aqueles que estão com problemas, danificados. “Trago-os para o hospital na maca.”

Maria Zelene de Santana Melo, funcionária da biblioteca, faz o papel de enfermeira. “Eu registro o livro doente e passo para Neusa Bonfim Garcia, a cirurgiã. Meu trabalho é gratificante, eu restauro livros na realidade. Pegar um livro e poder trazê-lo de volta é muito bacana. Faço esse trabalho há três anos. Restauro todo tipo de livro. O infantojuvenil é o que mais sofre com danos. A moçada estraga mais. Danifica a capa, o dorso. Pegam com a mão suja. Às vezes descuida e o irmãozinho rasga, suja.”
Encadernação uma profissão em extinção

A biblioteca trabalha com os meninos de Liberdade Assistida e Programa Prestação de Serviço à Comunidade. “Eles conhecem e aprendem noções básicas de encadernação para mostrar que isso é uma profissão. Que eles podem se tornar profissionais. É uma profissão em  extinção como o sapateiro.”
Remédios criativos

•Dorfolha
•Antipoeira
•Livrador
•Antifungo
•Guardafolha
•Remendaqui
•Apagadenex
•Neocapan
•Amor
•Carinho

 

Fonte: http://www.jcnet.com.br/Regional/2016/01/hospital-e-para-atender-livros-danificados.html

Anúncios

Deixe seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s